País: Reino Unido
Gêneros: Rock, Pop Rock, Alternative Rock, Post-Punk
Álbum: October
Ano: 1981
Duração: 39:46
Músicos:
● Bono Vox: voz
● The Edge: guitarra, piano
● Adam Clayton: baixo
● Larry Mullen Jr.: bateria
Lançado em 12 de outubro de 1981, "October" é um álbum construído a partir de uma crise. O U2 entrou em estúdio sem material finalizado, com conflitos internos relacionados à fé cristã de parte da banda e com uma insegurança crescente sobre o próprio papel no mundo do Rock. O famoso episódio do caderno de letras perdido de Bono não é apenas uma curiosidade: ele simboliza o estado fragmentado do projeto.
Musicalmente, o disco se afasta do impulso juvenil de "Boy" e se aproxima de uma postura contemplativa e hesitante. O piano assume um papel central, muitas vezes conduzindo as faixas de maneira quase litúrgica. A guitarra de The Edge torna-se mais atmosférica e menos rítmica, enquanto a seção rítmica soa deliberadamente contida.
As letras abordam fé não como certeza, mas como conflito. Há louvor, dúvida, angústia e súplica coexistindo. Isso afasta o álbum de qualquer leitura simplista como "Rock religioso" e o aproxima de uma tradição mais ampla de questionamento espiritual no Rock, algo que mais tarde seria explorado com maior sofisticação.
Não é um álbum confortável — e essa é sua principal virtude. Ele representa o momento em que o U2 quase se desintegra, mas justamente por isso estabelece uma profundidade emocional que sustentaria a fase seguinte. Sua reavaliação crítica ao longo das décadas o transformou em peça-chave para entender a identidade do grupo.
Definitivamente "October" é um disco mais sutil e menos imediato, no entanto guarda algumas das canções mais reveladoras da fase inicial do U2. "Gloria" é a música mais conhecida do disco e, de certa forma, sua porta de entrada mais acessível. Construída sobre um riff circular e hipnótico de The Edge, "Gloria" mistura energia quase Punk com uma letra explicitamente espiritual — algo ousado para o Rock do início dos anos 80. O uso do latim ("Gloria in te Domine") não soa como provocação ou dogma, mas como expressão de êxtase e busca. Musicalmente, ela antecipa a grandiosidade futura do U2, mas ainda carrega a urgência crua dos primeiros anos. Ao vivo, tornou-se um momento catártico nos shows da época. "I Threw a Brick Through a Window" é uma das faixas mais intensas emocionalmente do álbum. A música cresce lentamente, quase em forma de lamento, até atingir um clímax contido, mas angustiante. A letra é ambígua: pode ser lida como metáfora de ruptura espiritual, crise de fé ou frustração emocional. A bateria de Larry Mullen Jr. aqui é especialmente expressiva, guiando a música com um senso de tensão constante. É um ótimo exemplo de como "October" trabalha mais clima e sentimento do que impacto imediato. "Tomorrow" é talvez a faixa mais singular do disco. Inspirada pela morte da mãe de Bono, a faixa traz uma sonoridade inesperada, com influência direta da música tradicional irlandesa — especialmente no uso do uilleann pipes. É uma canção sobre luto, mas sem sentimentalismo fácil. A melodia é triste, porém digna, quase cerimonial. Dentro da discografia do U2, ela se destaca como uma das primeiras tentativas bem-sucedidas de integrar identidade irlandesa explícita à linguagem do Rock. "October" é quase instrumental, curta e introspectiva, funciona como o coração emocional do álbum. Baseada em piano, ela estabelece um clima contemplativo e frágil, refletindo perfeitamente o estado de espírito da banda naquele momento. Mais do que uma música isolada, "October" atua como um interlúdio conceitual, reforçando a sensação de que o disco é um diário espiritual aberto, cheio de pausas, dúvidas e silêncios. Em "With a Shout (Jerusalem)" o U2 chega mais perto do limite entre devoção e desespero. A música é intensa, quase claustrofóbica, com vocais de Bono soando mais como súplica do que como celebração. É uma faixa divisiva: para alguns, excessivamente religiosa; para outros, uma das expressões mais honestas da crise espiritual da banda. Seja como for, ela ajuda a entender por que October é um álbum de tensão interna, não de respostas prontas."Scarlet" é uma joia discreta. Instrumental, minimalista, construída sobre repetição e atmosfera, que aponta diretamente para o caminho que o U2 seguiria com Brian Eno alguns anos depois. Ela mostra o grupo experimentando com espaço, textura e sensação — menos preocupados com estrutura tradicional de canção e mais interessados em criar estados de espírito.
Em resumo, as músicas de destaque de "October" não brilham pela força de hits, mas pela honestidade emocional e pelo risco artístico. É um disco que recompensa a escuta atenta e contextualizada, especialmente quando visto como a ponte entre a inocência de "Boy" e a afirmação política de "War".
Faixas:
| Nro. | Título | Duração |
|---|---|---|
| 01 | Gloria | 4:55 |
| 02 | I Fall Down | 3:24 |
| 03 | I Threw a Brick Through a Window | 4:54 |
| 04 | Rejoice | 3:57 |
| 05 | Fire | 3:27 |
| 06 | Tomorrow | 4:38 |
| 07 | October | 2:21 |
| 08 | With a Shout (Jerusalem) | 4:12 |
| 09 | Stranger in a Strange Land | 3:56 |
| 10 | Scarlet | 2:47 |
| 11 | Is That All? | 3:00 |

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