País: Reino Unido
Gênero: CD1 e DVD Heavy Horses: Prog Folk / CD2, CD3 e DVD Live at Berne: Symphonic Prog e Prog Folk
Box: Heavy Horses e Live at Berne (esse foi mixado por Jakko Jakszyk)
Ano: 1978/2018
Duração: deliciosamente longa
Músicos:
● Ian Ânderson: vocais, apitos, flauta, mandolim, violão e algumas contribuições na guitarra
● Martin Barre: guitarra
● John Evan: piano e órgão
● Barriemore Barlow: bateria e percussão
● John Glascock: baixo
● David Palmer: teclados, arranjos orquestrais e pipe organ portátil
Com:
● Darryl Way: solo de violino em Heavy Horses e Acres Wild
Remixagem:
● Steven Wilson & Jakko Jakszyk
Rumo à análise das faixas e conteúdos!
CD 1
Faixa 1 é dinâmica, com bom trabalho de flauta e violão. A seção rítmica é um pouco aleatória, com compassos meio desencontrados. No finalzinho as harmonias vocais são fantásticas, e tudo se encaixa muito bem.
Faixa 2 começa dinâmica, aí vira uma toada pop-rock com leves tintas folk. Até tem, no meio, um breve interlúdio bem trabalhado, com palmas, flauta e percussão. No finalzinho fica repetitiva.
Ótima introdução de guitarra na 3a faixa, seguida de esplêndida combinação blues-rock envolvendo baixo e bateria. Vão desenvolvendo bem as idéias principais. Aos 2min ganha um bom dinamismo e uma ótima aceleração. O suporte da guitarra, mesmo quando está mais ao fundo, é sempre vigorosa e essencial. Com 4min e meio retomam aquele blues-rock inventivo. Dessa vez, com um pouco mais de presença das cordas.
Boa balada na 4a faixa, bastante centrada nos ritmos vocais, executados com uma fabulosa altura de tom. O fraseado de flauta que complementa os vocais e dá o tom das cordas, é encantador. No meio há um interlúdio eficiente.
O baixo e os vocais estão meio desarticulados entre si na próxima música. A bateria até faz um bom trabalho, mas também tá um pouco perdido. Nenhuma melodia cativa, ou pode ser descrita como pelo menos um pouco memorável. Ademais, há um compasso, bastante onipresente nessa composição, que é irritante e simplista.
As cordas não salvam os principais fraseados da 6a faixa, extremamente pedantes. Mas pelo menos evitam que essa composição seja um desastre total.
Há um belo trabalho de violão na 7a faixa, contudo todo o restante é quase infantil. Os vocais estão particularmente repetitivos e limitados.
A 1a metade da 8a faixa é uma balada mediana, com vocais aveludados. Do meio em diante acelera um pouco, ficando com um saborzinho medieval e meio roqueiro. Não tem nada relevante, mas é audível.
Na música seguinte, o violão faz uma boa costura para a combinação rítmica intrincada do vocal. Entra uma percussão folk, meio em marcha também. Que sem demora migra para uma bateria cada vez mais consistente, portanto meio roqueira e progressiva. Belo trabalho de flauta. O restante da execução transita entre o folk e um rock mais sutil, e faz isso com eficiência e robustez.
A 10a tem uma boa proposta rítmica, com boa combinação entre os pratos, baixo e cordas. Os vocais de Ian fluem com limpidez, personalidade e naturalmente consistentes.
A próxima música é uma miscelânea intrincada de idéias folk, um pouco cruas e levemente desencontradas. Teria dado uma grande música se tivessem trabalhado mais nela.
Faixa 12 é uma boa balada, com belíssimo trabalho de voz e violão. É quase uma cópia de uma das faixas acústicas de Aqualung. Não é bem finalizada.
Faixa 13 tem harmonias bem trabalhadas, uma marcha em looping marcante. Entretanto, tem o mesmo problema da demo anterior quanto ao término, fazendo com que acabe não se tornando tão memorável.
As contribuições das guitarra são válidas na 14a faixa, mas as escolhas dos momentos de serem incluídas foram mal feitas. Há uma boa parceria entre vioião e flauta e percussão em boa parte dessa faixa.
A 15a faixa, Beltane, é um musicão. Harmonias vocais inventivas e marcantes! Aliás, tudo combina muito bem, e entra deliciosamente pelos ouvidos. Ele inventa umas paradas na bateria e uns "ataques" da flauta que são mesmo fantásticos. Segundo o livreto dentro do box, essa música foi gravada em julho de 1977, e faria parte do EP (nunca lançado) "Moths". Também foi cogitado para o lado B do single da música "Moths", mas acabaram optando pela música "Life is a Long Song", de 1971. A primeira vez que "Beltane" saiu num lançamento foi, segundo o livreto, no box "20 anos de Jethro Tull", de 1988.
Piano e voz abrem a 16a música. Música com viés romântico (que não tem nada a ver com romantismo). Cordas e flauta trazem belos contornos aos outros instrumentos, e também se saem bem quando assumem a dianteira da composição.
17a faixa: os vocais estão expressivos, e o violão é bem explorado, sem ficar excessivo. A flauta contorna - em alguns momentos - bem a composição. As cordas fluem com jovialidade e elegância.
A 18a faixa não fede mal nem cheira bem.
CD 2
Em síntese, tanto esse disco quanto o 3 são um show feito por JT em Berne Festhalle, na Suíça, em 28 de maio de 1978. Desse material, cinco das vinte e quatro faixas presentes nas fitas desse show foram aproveitados para o Bursting Out (cujas outras partes foram obtidas de outros shows na Europa). Entretanto, como indicado por Martin no livreto, Bursting precisou de vários overdubs para ficar "apresentável". Pelas minhas audições desses CDs do show na Suíça, há bem menos overdubs. E as apresentações estão MAGNÍFICAS! O ouvinte pode até se queixar de não gostar das músicas C, F e/ou P; mas aposto alto que é praticamente uma unanimidade que estão tocando o fino!
A 1a faixa é uma introdução erudita mas com toques sinistros, dramáticos. Que mais para o final assume algusn tons lúdicos.
Faixa 2 é um mestre-de-cerimônias anunciando o espetáculo.
Faixa 3 é roqueira. Que sintonia entre guitarra e flauta, espetacular! Os timbres da guitarra são impactantes, e a bateria é de uma precisão, aliando economia e robustez com um arte maravilhosa. A vitalidade e sensibilidade de todos salta aos ouvidos. Mais para o final o baixo a-tro-pe-la no bom sentido.
Faixa 4 tem bons riffs de guitarra, mas o restante do instrumental não se destaca muito não. Termina de um jeito muito solto.
Faixa 5 é uma espetacular interpretação desse clássico. Skating away on the thin ice of new day. Todo o instrumental do original de estúdo está lá, e o baixo faz uma performance magnífica, trazendo uma mais firme camada de swing.
Faixa 6 é uma música que adoro. O violão está límpido e eloquente. É estupenda a capacidade dos vocais de Ian de se manterem sempre frescos, e com a altura certas. Não executaram a canção completa.
A harmonia da 7a faixa inicialmente me surpreendeu, para uma música do Heavy Horses. A música vai crescendo em densidade, transita para trechos mais amenos, com boa distribuição dos compassos. O compasso dos vocais dessa vez impressiona menos. Ademais, de um modo geral, é uma música com ritmos mais lentos, mas que carecem dos elementos que cativam numa música lenta.
Partem para a faixa-título do release de 1978. Martin Barre apresenta ótimos timbres, e demarca muito bem as notas. Todo o restante da banda executa seu trabalho com perfeição, mas o que realmente não contribui é que a composição é limitada. Finalizaram muito bem a música.
Na 9a faixa, voltam bastante no tempo, até 1969, para um blues-rock marcante da carreira deles, It was a new day yesterday. Com os recursos de Ian nas flautas, a evolução de Martin desde então, e com a formação espetacular da época, você escutará nada mais, nada menos, que um petardo.
A próxima é bem conhecida dos fãs do JETHRO, pois está em Bursting Out. Um solo de flauta arrasador, seguido de uma interpretação primorosa de God Rest Ye Merry Gentleman/Bourrée. Não há o que comentar. Se ainda não conhece, ouça, meu caro leitor ou leitora.
A 11a é uma versão mais pesada de Living in the Past, misturada com A New day Yesterday, totalmente instrumental. INESQUECÍVEL!
Interpretação primorosa na 12a faixa. Dá para perceber que os membros estão um pouco cansados. Mesmo assim, entregam uma jóia muito bem lapidada. Até porque pelo menos para mim, Songs from the Wood tem as harmonias vocais mais excepcionais e geniais que conheço da obra do TULL. Impressionante o fôlego de Ânderson, para manter todo o vigor com a flauta, na sequência de músicas ora apresentada (que pode não ter correspondido à ordem em que tocaram no show).
CD 3
JT sempre cuidou muito bem das apresentações ao vivo de Thick as a Brick, e na abertura desse disco não foi diferente. Nada a acrescentar, apenas que são praticamente 13min de deleite.
Começam tinindo em Hunting Girl. Inclusive, conseguem reproduzir com exatidão e esplêndida firmeza aquela sequência dificílima baixo, guitarra, flauta, se alternando, parando, voltando. Caramba, holy gods of musicianship, eu já havia me encantado quando os vi ao vivo. Só que nesse registro de 1978 estavam até alguns degraus acima. Todas as camadas e até nuances extras estavam lá, e felizmente foram registradas e remanejadas pelos brilhantes Steven Wilson e Jakko Jakszyk.
Deram a Too Old to Rock and Roll, a 3a faixa, uma roupagem levemente ingênua, o que foi positivo, pois ganhou em fluidez. Da metade em diante a música vai ganhando velocidade, tornando-a ainda mais envolvente.
A música seguinte, Conundrum, também está em Bursting Out. É uma experiência inteiramente instrumental com uma densa massa sonora, e baseada na guitarra e bateria. Uma proposta de power trio. Intenso, só lhe falta identidade.
A 5a faixa tem uma pegada intensa e perfeita de Ministrel in the Gallery. O violão está penetrante, e os acordes roqueiros imprimem uma densidade sonora impressionante em todo o conjunto. Aliás, JETHRO sabia muito bem que os shows têm que ter ROCK AND ROLL.
Na 6a faixa a massa sonora é impressionante, tanto na abertura, com camadas extras no instrumental, quanto com o imparável Martin Barre! A mim soa que ele está sendo, na performance dessa música, a inspiração para os outros, fazendo todos, incluindo Ânderson, se superarem. Pouco depois da metade o baterista e baixista parecem pensar "ei, não vou deixar o guitarrista me apagar não!" Exuberantes!!
A 7a faixa é uma saborosa marcha cuja dianteira é tomada pela combinação teclados-guitarra. Fantástico. E serve de abertura para
a 8a faixa, Aqualung, que então começa aterradora! Que timing assombroso de bom, tanto para o compasso "arrastado" em muitos trechos dessa composição, quanto na transição entre as diferentes harmonias. E até o encerramento dessa música (cuja versão original do estúdio considero apenas bom) conseguiram melhorar nessa ocasião.
Aí entra o carro-chefe de JT, Locomotive Breath, dessa vez puxando a entrada ainda mais para o blues e principalmente o jazz. Quando Barre entra, o faz penetrante, inspiradíssimo! A parte mais pesada da composição está até um pouco mais pesada dessa vez. Tanto é que a flauta fica até um pouco sumida no meio dessa massa densa. No finalzinho rola um improviso, bem breve, que serve de abertura para a próxima música,
a 10a faixa, dessa vez uma marcha pomposa, que logo vira uma proposta vibrante bem roqueira e cheia de nuances, particularmente intensas. Que um pouco mais pro final se transmuta genialmente na retomada de Aqualung.
DVD
O DVD 1 contém a mixagem original em stéreo do álbum de estúdio, assim como a remixagem de Steven Wilson 5.1 surround. Consegui escutar a primeira, e quando fui partir para a segunda, o som não saía; aí mudei a configuração de áudio, e o som passou a chegar. Acompanham, essa versão, imagens do estúdio, do técnico de som, partes do encarte do vinil, e registros dos instrumentos, dias das viagens nas turnês, bastidores, etc. Quanto à diferença entre a mixagem originária, e a de Mr. Wilson, ele fez o que se espera de um bom técnico: abriu mais os instrumentos, sem soar excessivo. Mas ele não fez "só" isso. Na música "Lullaby" ele diminuiu um pouco o baixo, e o "emparelhou" um pouco mais com os outros instrumentos, fazendo com que ele não se destaque demais. Que é o que acontece na versão de 1978. Por sua vez, em Journeyman, logo no início percebi que essa mixagem fica com o baixo mais saliente, e um pouco mais metálico. Esse DVD tem uns extras, como uma versão muitíssimo bem gravada da faixa "Rover", sem as cordas. Tem também uma outra versão de "Living in these hard times". E a espetacular música "Beltane", que não consta dos lançamentos originais de nenhum disco de estúdio da época, tendo sido acrescido a um disco de estúdio do final dos anos 80, assim como faixa-bônus em relançamento remasterizado de Songs from the Wood.
O vídeo do DVD 2 começa com fotos do show, ou da turnê de 1978. Há fotos repetidas, e repetidas mais de uma vez.
O vídeo e áudio dos clipes de divulgação das músicas Heavy Horses e Moths estão excepcionais. Sempre é satisfatório ver aquela cara de maluco beleza misturado com Doc (do filme De Volta pro Fututro) do Ian, e seus espalhafatosos trejeitos. Na música Heavy Horses aparece a banda toda tocando, enquanto em Moths é só o líder do grupo. De fato, é muito bom o trabalho de cordas das duas músicas. Sendo que a música sobre cavalos, para mim, fica meio repetitiva, e poderia ter sido encurtada. Outro vídeo extra é a curta (e tinha que ser mesmo) divulgação do duplo "Bursting Out". E também o curto vídeo de divulgação que inclui tanto a propaganda do "Bursting Out", quanto a divulgação do icônico show no Madison Square Garden.
LIVRETO
Contém informações breves sobre as faixas do CD1, os créditos do original de estúdio, as dedicatórias, e as informações técnicas sobre a gravação. Tem também os agradecimentos para a edição do box, assim como as informações adicionais referentes à sua arte, sua gravação e produção.
Fala também, segundo relatos de Ian, Martin e Dee (outrora David; o novo nome foi adotado após uma transição de gênero) Palmer, sobre os estúdios construído sob a égide de Ian; denominado Maison Rouge, que, segundo o próprio criador, durou alguns poucos anos depois da gravação de Heavy Horses. O livreto ainda tece comentários, sobretudo desses 3 (ex)membros, sobre o clima mais acinzentado que rondava a banda (e subsequentemente, o próprio disco) na época. Cada um deles apresenta hipóteses para tal, e a análise de Dee Palmer é particularmente interessante, inclusive fazendo comparações com o processo de criação e gravação de outros lançamentos. Há também um "capítulo" sobre as inúmeras demos gravadas entre 1977 e 1978 (algumas delas constam como faixas-bônus no CD1), e porque não foram posteriormente aproveitadas. Li integralmente 17 das 93 páginas do livreto, e dei uma folheada no restante do conteúdo. Posso adiantar que há bastante coisa interessantemente informativa. Como os relatos de Darryl Way sobre suas parcerias com JT, a turnê pelo Reino Unido, lembranças de Ian sobre cada faixa do Heavy Horses, uma cronologia do período, depoimento de Maddy Prior sobre algumas colaborações com Ian. E, claro, as letras das faixas.
Faixas:
CD1
01. ... And the mouse police never sleeps (3:12)
02. Acres Wild (3:24)
03. No Lullaby (7:54)
04. Moths (3:31)
05. Journeyman (3:58)
06. Rover (4:30)
07. One Brown Mouse (3:23)
08. Heavy Horses (9:03)
09. Weathercock (4:01)
Faixas-bônus (demos daquele período):
10. Living in these hard times (2a versão) (3:20)
11. Everything in our lives (2:46)
12. Jack-a-lynn (3:49)
13. Quatrain (3:49)
14. Horse-hoeing Husbandry (4:11)
15. Beltane (5:18)
16. Botanic Man (3:15)
17. Living in these hard times (1a versão) (3:10)
18. Botanic Man theme (2:47)
CD2
01. Opening Music
02. Introduction by Claude Nobs
03. No Lullaby
04. Sweet dream
05. Skating away on the thin ice of the new day
06. Jack-in-the-green
07. One brown mouse
08. Heavy Horses
09. A new day yesterday
10. Flute solo improvisation / God rest ye merry gentlemen / Bourée
11. Living in the past (instrumental) / A new day yesterday (reprise)
12. Songs from the wood
CD3
01. Thick as a brick
02. Hunting girl
03. Too old to rock and roll: too young to die
04. Conundrum
05. Ministrel in the gallery
06. Cross-eyed Mary
First encore:
07. Quatrain
08. Aqualung
Second encore:
09. Locomotive breath
10. The Dambuster's march / Aqualung (reprise)
DVD Heavy Horses
Mesmas faixas do disco de estúdio Heavy Horses, com a mixagem original seguida da mixagem de Steven Wilson
DVD Live at Berne
Mesmas faixas dos CD2 e CD3
É, leitor(a). Não tem no Spotify, nem no Youtube, trechos do show em Berne. Eu preferiria postar esse incrível show, do que lhes deixar o álbum de estúdio. Então, segue abaixo o link para o Heavy Horses remixado pelo Steven Wilson.
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