Últimas resenhas publicadas

Pesquise

domingo, junho 21

ARTILLERY ● By Inheritance ● 1990

Artista: ARTILLERY
País: Dinamarca
Gêneros: Heavy Metal, Trash Metal
Álbum: By Inheritance
Ano: 1990
Lançamento: Maio
Gravadora: Roadracer Records
Duração: 47:35

Músicos:
● Flemming Rönsdorf: vocais
● Michael Stützer: guitarra líder
● Peter Thorslund: baixo
● Morten Stützer: guitarras
● Carsten Nielsen: bateria

Fundada em 1982 no subúrbio de Taastrup, em Copenhagen, a banda ARTILLERY estabeleceu-se como uma das principais pioneiras do Thrash Metal na Dinamarca. Caraterizado por uma sonoridade altamente energética, veloz e focada em riffs complexos, o grupo desempenhou um papel vital no desenvolvimento inicial do género na Europa Continental. Durante este período de formação, o ARTILLERY partilhava uma sala de ensaios em Taastrup com bandas proeminentes como o MERCYFUL FATE, proporcionando um ambiente de intercâmbio criativo onde músicos de ambos os coletivos frequentemente realizavam sessões de improvisação. Relatos históricos registam que o falecido baixista dos METALLICA, Cliff Burton, passava várias horas a tocar no baixo de Morten Stützer nessas instalações partilhadas.

A evolução inicial da banda foi marcada pelo lançamento das maquetes "Shellshock" e "Deeds of Darkness" em 1984, que contavam com o vocalista original Carsten Lohmann. A transição para um som mais agressivo ocorreu com a entrada do vocalista Flemming Rønsdorf, que gravou a terceira maquete, intitulada "Fear of Tomorrow", culminando na assinatura de um contrato com a editora Neat Records e no lançamento do primeiro álbum de estúdio homónimo em 1985. Em 1987, a banda lançou o seu segundo registo, "Terror Squad", consolidando um estilo técnico e veloz altamente influenciado pela cena da Bay Area de São Francisco, assemelhando-se aos primeiros trabalhos de METALLICA e MEGADETH.   

O talento técnico do grupo era de tal forma reconhecido no circuito europeu que o baterista Carsten Nielsen chegou a ser contactado por Quorthon, o mentor do projeto pioneiro de Black Metal BATHORY, que o convidou para assumir as baquetas da sua banda. Nielsen declinou o convite devido à sua convicção inabalável de que o ARTILLERY se tornaria um fenómeno mundial muito maior do que os BATHORY. Contudo, a distribuição deficiente de "Terror Squad"por parte da Neat Records, que forçava os próprios fãs dinamarqueses a adquirir o álbum através de importação dispendiosa, abalou o moral do grupo e desencadeou profundas fissuras internas.   
A deterioração interna da banda culminou na saída do guitarrista Jørgen Sandau em 1989. O motivo real da sua partida prendeu-se com uma profunda frustração profissional em relação ao comportamento do outro guitarrista da banda, Michael Stützer, que alegadamente não praticava em casa, comparecia desprovido de preparação aos ensaios e demonstrava falta de rigor técnico durante as sessões de estúdio. Com a saída de Sandau, o baixista Morten Stützer, amplamente reconhecido como o elemento mais dotado tecnicamente no ARTILLERY, assumiu as guitarras, enquanto o posto de baixista foi preenchido por Peter Thorslund. Embora Thorslund não possuísse inicialmente a destreza técnica exigida pelo catálogo complexo da banda, a sua enorme ética de trabalho permitiu-lhe superar essas limitações rapidamente.

Apesar destas remodelações de alinhamento, a banda encontrava-se praticamente desfeita em 1989. O estímulo para a sua reorganização surgiu através do convite para integrar a iniciativa cultural "Next Stop Soviet", que levou bandas ocidentais a realizar concertos na União Soviética. O ARTILLERY aceitou o repto e viajou até Tashkent, a capital da então República Socialista Soviética do Uzbequistão. A longa viagem de comboio através do território soviético revelou-se o catalisador definitivo para o renascimento criativo da banda. Durante o percurso ferroviário, Morten Stützer e Flemming Rönsdorf reconectaram-se a nível musical, aproveitando para reestruturar uma composição antiga chamada "We Are the Dead", que acabou por se transformar na canção "Don't Believe". Inspirados por este progresso, escreveram de imediato o tema "Khomaniac".

Ao regressar à Dinamarca, o grupo gravou estas duas faixas a 1 de fevereiro de 1989. A maquete promocional foi enviada para várias editoras, atraindo a atenção da Roadrunner Records (através do selo Roadracer Records), que ofereceu o contrato discográfico mais vantajoso, salvando a banda da dissolução iminente e viabilizando o desenvolvimento do material para o terceiro álbum.  
A nível melódico, a passagem por Tashkent influenciou diretamente o direcionamento estético de "By Inheritance". A incorporação de escalas musicais orientais e melodias exóticas do Médio Oriente, longe de soar como um artifício forçado ou uma manobra de marketing superficial, foi integrada de forma excecionalmente fluida e natural na estrutura das composições de Thrash Metal. Esta fusão estéril de influências incomuns foi elogiada por conferir um caráter imperioso, quase majestoso e imperial às composições.   
Gravado entre janeiro e fevereiro de 1990, "By Inheritance" beneficiou da produção, engenharia de som e mistura de Flemming Rasmussen no Sweet Silence Studios, em Copenhagen. Rasmussen era já uma referência incontornável na indústria do Heavy Metal devido ao seu trabalho icónico com os METALLICA A sua abordagem no estúdio baseava-se em técnicas de captação estritamente analógicas, privilegiando a ressonância natural das salas em detrimento de medições técnicas estéreis.   
Diferenciando-se das temáticas de violência gratuita e choque visual dominantes no Thrash Metal tardio e no emergente Death Metal daquela transição de década, as letras de "By Inheritance", maioritariamente concebidas por Flemming Rönsdorf, oferecem uma reflexão madura e uma crítica sociopolítica acutilante sobre os eventos globais. Rönsdorf defendia que o mundo real continha já atrocidades suficientes, tornando desnecessário o recurso a metáforas fantasiosas ou Gore.   
A canção "Khomaniac" dirige uma crítica feroz ao Ayatollah Ruhollah Khomeini, o líder da Revolução Islâmica no Irão, denunciando-o como um tirano fanático e violador dos direitos humanos fundamentais. Num período de elevada tensão geopolítica no Médio Oriente, a ousadia da banda em abordar diretamente estas figuras foi considerada um ato de grande coragem artísticaPor sua vez, "Bombfood" adota uma perspetiva pacifista e humanista ao analisar a manipulação sistemática de jovens recrutas pelos governos estatais, que os preparam para a guerra desprovidos de agência moral, transformando-os em meros peões descartáveis na linha da frente. Temas como a avidez económica, o narcisismo das massas, o controlo mental corporativo e a busca desenfreada do homem pelo controlo e pelo poder são desestruturados ao longo de faixas como "By Inheritance", "Don't Believe" e "Life in Bondage", demonstrando uma densidade filosófica que aproximou o Artillery da corrente crítica do movimento punk e da música de intervenção.   
A nível instrumental, "By Inheritance" apresenta uma execução técnica irrepreensível, caracterizada por um equilíbrio perfeito entre velocidade, agressividade rítmica e sensibilidade melódica. Existe uma discussão de longa data na comunidade de músicos e críticos de Metal que carateriza a abordagem das guitarras do álbum como o trabalho de "duas guitarras rítmicas e nenhuma guitarra solo". Esta perspetiva decorre do facto de os solos concebidos pelos irmãos Stützer serem invulgarmente melódicos, contidos e estruturados, afastando-se do habitual virtuosismo caótico e cromático de bandas contemporâneas como os SLAYER. C...ontudo, longe de constituir uma fragilidade técnica, esta abordagem focada em solos harmonizados e progressivos confere às composições um charme melódico único e memorável, integrando elementos de metal clássico e arranjos neoclássicos de forma requintada. Os riffs, por sua vez, primam por uma complexidade matemática, apresentando uma enorme variação e transições métricas sem que a fluidez composicional das faixas seja comprometida.   
A sustentação harmónica e rítmica do trabalho de guitarras apoia-se inteiramente no baixo dinâmico de Peter Thorslund, que desenha linhas melódicas independentes em vez de apenas duplicar os riffs das guitarras. A bateria de Carsten Nielsen exibe uma precisão orgânica excecional, impulsionando constantemente a velocidade das músicas com um trabalho detalhado nos pratos e variações rítmicas complexas. No topo desta intrincada malha instrumental, a prestação vocal de Flemming Rönsdorf revela-se uma das mais singulares da história do thrash metal. O seu estilo funde de forma magistral a rispidez agressiva do thrash com falsetes altíssimos e expressivos característicos do Power Metal norte-americano dos anos 1980 e do trabalho cénico de King Diamond. A sua voz transmite uma dualidade única de calor lírico e fúria cortante que eleva o material melódico do álbum.

Fontes pesquisadas
Rate Yr Musi
Faixas
Nº  TítuloDuração 
017:00 From Tashkent00:53
02Khomaniac06:42
03Beneath the Clay (R.I.P.)   04:48
04By Inheritance05:42
05Bombfood05:42
06Don't Believe04:40
07Life in Bondage05:27
08Equal at First04:25
09Razamanaz03:14
10Back in the Trash06:02
.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente e Participe